A Separação
Postado por Facool - 27/01/2012 15:33
*Por Jade Primavera
Depois de Gus Van Sant, o filme iraniano A Separação, vencedor do Globo de Ouro e indicado ao Oscar deste ano está em cartaz em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília, fato que mais uma vez revolta os porto alegrenses, que são colocados como parte de uma “capital cultural” que há tempos não tem sido contemplada com fortes estreias nacionais.

O enredo parte da separação de três pessoas que não querem se separar, e que por motivos externos à trama, forçam-se ao divórcio familiar. A mulher quer deixar o país com sua filha, a situação por lá é insustentável, mas por quê? Isso não é preciso explicar para quem acompanha minimamente a situação do Irã. Fica implícito que os motivos externos são fortes ao ponto de provocarem o abandono da família.
Há ainda questões judiciais, onde ninguém é inocente ou culpado, mas sim vítimas da religião, do amor, do dinheiro, do destino e do que está fora da trama. Aliás, esse é o centro: o não dito. E essa vem sendo a ferramenta do cinema iraniano, já que não é possível dizer explicitamente o incômodo, assim como em qualquer ditadura. As críticas são veladas, nas entrelinhas se vê a situação das mulheres, o medo, a fuga. Os grandes desenlaces do roteiro estão no corte, não há soluções em um crescimento que vai expondo as fraquezas particulares aos poucos.
Em entrevista, o diretor Asghar Farhadi diz acreditar que o futuro do Irã está nas mãos das mulheres. Percebemos então que há uma menina pequena e outra adolescente na trama, personagens fortes do enredo. Os dias de hoje, sob o comando dos homens, não são satisfatórios, e o menino que está por nascer é, de maneira acidental, simbolicamente abortado, uma metáfora do que o diretor acredita ser o futuro. Também temos um forte contato com a educação da menina adolescente, que aprende a lutar por seus direitos “exigindo um troco” de homens ou sendo incitada a discordar da educação que a professora impõe. A dificuldade futura da adolescente também é exposta nas decisões difíceis colocadas em seu discernimento, invariavelmente prejudicando alguém que ama. No casal central, é a mulher que quer abandonar as crenças, o casamento, o país. O homem assume suas responsabilidades, fica preso ao passado, às tradições.
Tudo é bastante cru, da maneira como começa à forma de término, os cortes, as discussões, as brigas violentas e os insultos, o choro. Propostas de soluções não são trazidas, apenas mais dúvidas. Não existe um lado correto, as personagens são vítimas, sofrem, provocam sofrimentos e são dúbias. Todos são demasiado humanos, principal qualidade do filme. O espectador torna-se então um juiz a partir de suas identificações, e as emoções são as mais diversas. No cinema enquanto um chora, o outro ri; ao me comover com a atitude de uma personagem escuto ao mesmo tempo a senhora comendo pipoca do meu lado bradar: “Mas que chata essa menina!”...
Em uma onda o cinema iraniano vem tornando-se popular por aqui, do diretor já teve certo sucesso o Procurando Elly, outros diretores dessa geração são Abbas Kiarostami e Mohsen Makhmalbaf, que veio recentemente a Porto Alegre. E filmes que então têm fortes raízes e identificações com sua origem, atravessam fronteiras. O ocidente identifica-se mais uma vez com o oriente. O barulho é merecido, A Separação é um filme imperdível.
Confere aqui a entrevista para a ABRACCINE de Mohsen Makhmalbaf.
Trailer de A Separação:




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